10 perguntas para Grace Gianoukas, a mente por trás da “Terça Insana”

Há 18 anos se reinventado no humor e nas artes, Grace Gianoukas celebra a maioridade do espetáculo “Terça Insana”, que marcou toda uma geração de novos e consagrados artistas. Dando continuidade as festividades do emblemático aniversário, Grace leva o espetáculo para outra esfera da experimentação: o modo drive-in (atual formato de entretenimento em meio a pandemia de coronavírus) e ao online sem público presente. Confira nossa entrevista com a atriz, diretora e criadora:

Soda Pop: A ‘Terça Insana’ completou maioridade, e como você analisa esta trajetória que marcou o humor brasileiro?
Grace Gianoukas: São 18 anos deste projeto, que teve a participação de mais de 400 atores no palco, mais de 700 cenas e personagens originais, criados nestes anos e fizemos tantos espetáculos diferentes que obtemos um acervo incrível, que dá para segurar por mais 10 / 18 anos de espetáculo. Eu sinceramente acho que o projeto é muito bem sucedido.

Tenho muito orgulho de ter dirigido esse projeto de pesquisa e criação de linguagem de humor, pois tudo o que plantamos, deu frutos não só pra nós como pra toda uma nova geração. A gente abriu um caminho de uma comédia que possa filosofar, que possa ter mais respeito pelo ser humano e que busque outras coisas para rir, que não o bullying, porque somos pioneiros nisso.

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SP: Quais foram os melhores e os piores momentos do “Terça Insana” nestes 18 anos?
GG: Eu acho que a Terça Insana é uma coletânea de vários momentos, os grandes momentos de criação, coisas geniais que foram criadas pelos atores no palco da Terça Insana. Grandes encontros e espetáculos que foram maravilhosos para plateias de 6, 7 mil pessoas, 30 pessoas, não importa o quanto, importa a troca de energia que sempre foi incrível com o público. Pessoas que vieram nos agradecer pois os nossos DVDs ajudaram familiares a saírem da depressão. Então isso são grandes e inesquecíveis momentos.

Talvez um dos piores momentos que tenhamos passado foi em 2007, quando a nossa produtora Sandra Güez, estava com uma doença bastante grave e rara, uma espolangiate esclerose. Ela fez um transplante de fígado e não resistiu, estava muito debilitada. Ir para o palco no dia da morte dela, foi uma decisão muito difícil, que todos nós tivemos que tomar. A partir daí fizemos muitas homenagens à ela e foi assim que a gente conseguiu vencer a dor.

SP: Vocês participaram de apresentações modo “drive-in”, como analisam este momento do entretenimento?
GG: Sim! Nós participamos, fizemos duas apresentações de um dos nossos espetáculos no Arena Estaiada Drive-in, e foi incrível. Foi tão legal, que estamos voltando para fazer mais duas apresentações e não é o mesmo show, são outras personagens, para quem já foi, poder voltar e rir novamente. Nós temos agora uma participação especial da Rita Murai, que também foi do nosso elenco da Terça Insana.

Eu acho que nós, humanos, apesar de fazermos muitas besteiras [destruir a natureza, temos muitas diferenças de pensamentos e entendimentos do mundo, o que eu não acho ruim – a diferença é importante], conseguimos nos reinventar. Eu acho absolutamente genial esse modo “drive-in”, é o que podemos fazer e não vamos perder a nossa alegria, não será um vírus que vai nos derrubar, a gente vai se proteger e inventar maneiras de ser feliz, de sair, passear e de estar com as pessoas que a gente gosta.

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SP: Como foi realizar apresentações sem o público presente? Já que o grande motor do humorista é o riso e o aplauso?
GG: Uma experiência muito interessante que eu tenho tido nos últimos tempos e com mais intensidade, [eu já fiz bastante coisa], mas nestes 38 anos de profissão, eu nunca fiquei tanto tempo fazendo TV, estou desde 2015 anualmente, fazendo novelas e programas. Porque diminuí o ritmo das apresentações da ‘Terça Insana’, então faço muita palhaçada na televisão também e a gente não precisa de público [presente] exatamente. Quer dizer, quando estamos gravando, tem as pessoas atrás das câmeras, é para elas que fazemos e a gente faz com verdade no coração. Então o pessoal do estúdio acha engraçado e o pessoal de casa também.

Portanto as apresentações no drive-in e nesses outros sistemas de live são bastantes interessantes e um desafio, mas a gente sabe que tem gente lá dentro do carro ou em casa [no streaming] assistindo e se for verdade, chega até o Nepal a energia de um comediante.

SP: Qual personagem ou quadro que o público mais pede nas apresentações?
GG: O público pede muitos personagens da “Terça Insana”, os nossos fãs que conhecem o nosso trabalho tem inúmeros pedidos, no meu caso o pessoal pede bastante a ‘Mulher Limão’, uma personagem que vou fazer neste show [dia 11/08], pedem muito a ‘Aline Dorel’, que não é uma personagem que se adapte ao modelo drive-in, pois é uma personagem mais lenta. Inclusive a gente pensa roteiros específicos para o modelo “drive-in”.

Gostam muito da ‘Betina Botox’, personagem do Roberto Camargo. A ‘Senadora Biônica’ também é bastante pedida, que é uma personagem da Agnes Zuliani e fala sobre política. Tem muita coisa: ‘Santa Paciência’ (advogada do Diabo), A Cinderela (uma traficante internacional), enfim, eu tenho mais de 70 personagens e estamos sempre buscando atender os pedidos do público que são bem variados.

SP: Grace, um dos seus recentes personagens é o do “Fundamentalismo”, que dialoga com a atual situação política do país. O quão importante é levar estes assuntos para o palco?
GG: O texto do fundamentalismo, por incrível que pareça, é um texto que escrevi em 2015 para a abertura de um espetáculo meu chamado “Grace Gianoukas Recebe”, era um projeto onde o público eram os passageiros de um avião e eu a aeromoça que entretinha enquanto a aeronave não decolava. No final o avião era o Brasil que não decolava nunca.

Escrevi este texto, porque eu estava vendo isso acontecer, essa divisão, este monte de brigas. As pessoas acham que escrevi agora, mas não! Eu vou acrescentando acontecimentos semanais, mas esta tendência não é de agora, ela está confirmada. É uma tendência mundial que veio vindo e que iria tomar conta do Brasil, com certeza. Estes assuntos são fundamentais, o teatro e a arte precisam falar da realidade. E o humor é uma grande ferramenta que a gente tem, para colocar na roda alguns assuntos, sem agredir ninguém.

No espetáculo desta terça, eu faço uma personagem que é uma entrevistadora que está com um cara que é estourado no Brasil de Norte à Sul: o Aedes Aegypti. Com muito humor ele fala dos produtos do Aedes: a denge, a febre amarela e não tem como não tocar no assunto do coronavírus e da pandemia, claro que com muito respeito e sobre o abandono da saúde e a possibilidade do fim do SUS.

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SP: Como acontece a seleção dos atores/personagens para fazer parte do elenco?
GG: Temos um leque muito diversificado de personagens, e todos eles seguem um ponto de vista que é o de não humilhar e não ofender ninguém. A Terça Insana sempre teve como diretriz abolir e exterminar o bullying dos palcos, que era uma tendência dos anos 90. Resolvi montar o projeto com este tipo de pesquisa de linguagem para se fazer um humor adulto contemporâneo.

Escolhemos os personagens dentre o acervo de 700 personagens, conforme podemos contar com os atores naquele período em que o trabalho estará em cartaz ou cidade. Para participar da ‘Terça Insana’, tem que ser criativo e ter originalidade. Neste momento não estamos selecionando atores, trabalhamos com a grande família Terça Insana.

SP: O futuro do entretenimento é incerto e tardio, como imagina os próximos anos para as artes?
GG: Estamos trabalhando em cima de possibilidades, ninguém sabe o que vai acontecer. Eu acho que os drive-ins são excelentes soluções, tem pessoas que estão conseguindo realizar projetos online e descobrindo uma linguagem muito legal. O Marat Descartes fez uma peça incrível, chamada “A Peça”, onde ele descobriu uma nova linguagem. Os teatros vão demorar um pouquinho para voltar, mas nós temos toda uma classe, que precisa muito de trabalho e vamos buscar meios de todo mundo voltar a trabalhar. É incerto, mas a arte é uma necessidade, existe porque a vida não basta, como diria o Ferreira Gullar.

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SP: Com a popularização das lives e do streaming, você levaria o projeto para alguma plataforma?
GG: Sim, com certeza! Nós temos material pra caramba, a gente já fez bastante live da Terça Insana, experimentando personagens conversando com outros. Temos até alguns convites e tal, para fazer coisas para o streaming e vamos estudar estas possibilidades. Neste momento o que impossibilita o formato é a minha volta ao Rio de Janeiro, para gravar a segunda temporada da novela “Salve-se Quem Puder”. A partir de janeiro, quando a novela terminar as gravações, vamos analisar o mercado e os convites e propostas. Mas com certeza aceitaria estes convites todos.

SP: Quais são os próximos passos do Terça Insana e o que ainda falta conquistar como projeto?
GG: Um dos projetos que já estavam em andamento para este ano, era a realização no segundo semestre da turnê da “Terça Insana 18 anos”, iríamos para algumas capitais do Brasil e também para Portugal. Todas estas apresentações foram suspensas, então temos que avaliar como estará a pandemia no próximo ano, para tentar finalizar estes compromissos.

Eu acredito que está faltando o livro da “Terça Insana”, contando sobre o processo de criação, para que as pessoas entendam quais foram nossas diretrizes e que possamos falar de todas as pessoas que participaram dos nossos grandes momentos. Estamos em processo de estruturação do projeto para ir em busca de captação.

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Andy Santana

CEO do Soda Pop, fotógrafo, inquieto, formado em moda e que ama música. Não exatamente nesta mesma ordem!

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