Em “Chicago”, todas as bocas só falam um nome: Carol Costa

Desde cedo, a bailarina e atriz Carol Costa já tinha a certeza de que trabalharia com arte, não importando em qual área escolhesse. Sua escolha foi unir a dança, o canto e a atuação, caminho este que a conduziu até o papel mais importante de sua carreira, o de Roxie Hart, no musical Chicago. Prisioneira, apresentadora, cangaceira ou criança, não importa o papel, Carol Costa se entrega e deixa sua marca no teatro musical nacional, confira nossa entrevista exclusiva:

Soda Pop: Como foi a preparação para o musical “Chicago”? Ele precisou ser adiado por conta da pandemia, como isso afetou a sua rotina?
Carol Costa: Uau, foram dois anos de espera. De muita ansiedade e dúvidas em relação ao acontecimento do musical e ao setor cultural em geral. Passei dois anos guardando o segredo que seria Roxie Hart e ao mesmo tempo me preparando e estudando para quando chegasse a hora. Não tem lado positivo na pandemia. Mas o único lado “bom” foi que tive esse tempo todo para me preparar e me aprimorar mais . Durante a quarentena tentei manter minhas aulas online de dança mesmo com o pouco espaço em casa e aulas de canto. As aulas online de Yoga também me ajudaram muito a controlar a ansiedade e cuidar da espiritualidade. Estudei e pesquisei muitas referências para Roxie. Tive tempo de ver e rever tudo o que eu quisesse. Com a flexibilidade e a tão esperada data marcada do início dos ensaios em novembro do ano passado, eu voltei para as aulas presenciais de ballet e canto. Treinei 3x por semana com meu personal para fortalecer a musculatura para a maratona que é fazer Chicago. Cuidei da alimentação e emagreci os 5 kg que ganhei durante a quarentena.

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SP: Qual o maior desafio e a maior oportunidade que você encontrou em Chicago?
CC: Minha Diretora, Tânia Nardini, nos disse que ‘Chicago’ muda a vida das pessoas que fazem o musical. E eu estou vivendo isso no momento. Sinto que ‘Chicago’ vem mudando a minha vida tanto profissional quanto pessoal. Ele veio como uma onda e está movimentando as minhas águas. Rs.

Roxie é a minha primeira grande protagonista. Não tem como não haver consequências boas desse processo. A maior oportunidade tem sido mostrar mais o meu trabalho e tudo que estudei tanto pra conquistar esse papel. Já o maior desafio é o estilo Bob Fosse. Um dos estilos de dança mais difíceis que existe. E outro desafio também tem sido driblar os outros compromissos e o cansaço, depois de uma semana com sete sessões de ‘Chicago’. Somos atletas do teatro musical. É muito cansativo. Mas muito gratificante também. Todo reconhecimento e todas as mensagens carinhosas que recebo compensam o cansaço.

SP: Você tem como formação o Ballet Clássico. Considerando todos os musicais que já fez, “Chicago” é o que mais te realiza?
CC: Com certeza. ‘Chicago’ é um musical, mas também é uma peça de teatro. Tem que haver muita verdade cênica e muita troca entre o elenco para essa história ser bem contada. E além disso, todo artista que integra ‘Chicago’ tem que dançar, atuar e cantar muito bem. As três ferramentas do teatro musical. E ainda tem que ter uma veia cômica. Sem dúvidas é a minha maior realização até hoje como artista. Estou tendo a oportunidade de desempenhar tudo que estudei e ainda estudo.

SP: Roxie fica famosa por conta de um assassinato, sendo preciso cometer um crime para chegar ao estrelato. Hoje em dia, é comum se ouvir sobre ‘formas duvidosas’ de alcançar a fama, e que, para conseguir um papel, os números nas redes sociais têm sido cada vez mais levados em consideração. Como você vê esta dinâmica no mercado teatral?
CC: Sinceramente acho inacreditável. Não desmerecendo o trabalho de ninguém. Mas existe tanta gente talentosa, que estuda e busca por oportunidades… Acho injusto uma pessoa sem formação teatral com milhares de seguidores ter uma chance no mercado teatral, na TV, no cinema etc.. Teatro não é isso. Não é sobre isso. Para fazer teatro e lidar com os riscos da profissão tem que amar muito o ofício e ser resiliente. Os verdadeiros artistas que batalham e estudam estão perdendo suas oportunidades para os números de seguidores do Instagram. E acredito que dependendo de como a pessoa chega lá, ela não se firma. Vai ser o boom do momento por um tempinho, mas se não tiver estudo, talento e dedicação, não vai se firmar. Então, um perfil com muitos números de seguidores nem sempre vem acompanhado de conteúdo e inteligência.

Carol Costa como Roxie Hart, em Chicago (Foto Andy Santana)

SP: Roxie Hart acredita que a fama que tanto busca, lhe trará coisas como respeito, confiança e amor. Você acredita que hoje a ‘cultura dos likes’ nas redes sociais seja um reflexo de desejos como estes?
CC: Roxie quer tanto ser famosa que se a história fosse adaptada para os dias de hoje ela com certeza seria adepta das dancinhas do TikTok, criaria conteúdos para o reels e Instagram. Teria um canal no YouTube. Seria amada, idolatrada etc… mas talvez seria sozinha. Uma pessoa com milhares de seguidores e solitária em sua vida real. Acredito que a rede social tem um lado super positivo e devemos usar isso a favor. Mas não podemos esquecer que a vida real é o dia a dia que ninguém vê. É o ‘corre’, como dizemos rs. É muito legal admirar alguém a ponto de você se inspirar para a sua vida. Passar a respeitá-la de acordo com o que ela prega, se identificar com o conteúdo que ela gera. Existe público para tudo. Mas não podemos deixar que essa ferramenta nos engane a ponto de achar que a vida do outro é muito melhor que a nossa. Acredito que respeito, amor e admiração a gente conquista com a nossa verdade. Eu por exemplo, recebo muito carinho e feed back por causa do meu trabalho. Isso é natural. É espontâneo. É lindo saber que consigo tocar o coração das pessoas com a minha arte. As pessoas me procuram no Instagram porque gostam do meu trabalho. E eu não tenho 1 milhão de seguidores. Ainda… Rs.

SP: Ainda sobre a analogia do passado/presente, acha que o julgamento da Roxie Hart, seria comparado ao julgamento e cancelamento que a internet promove atualmente com os haters?
CC: Com toda certeza. Hoje em dia, com tanta exposição na Internet, qualquer atitude, opinião considerada errada ou problemática, qualquer coisa que não se encaixe no que o outro não quer ver ou ouvir, gera consequências. Toda escolha ou atitude tem consequências. E na Internet ninguém perdoa. A pessoa é excluída, odiada, ameaçada a ponto de afetar gravemente a sua vida. Com Roxie na ficção não é diferente. Ou ela fala a verdade e é condenada igual a Hunyak no musical, ou ela mente, ensaiando todo um circo junto do seu advogado, Billy Flynn. Eles entregam a verdade que o público e o júri querem ouvir. Toda exposição gera consequências, positivas e negativas. Roxie pode ser tanto amada como odiada pelo público. Assim como casos que vemos na vida real, de pessoas que cometeram crimes e acabam tendo suas vidas expostas em um documentário ou filme, dando abertura para avaliação do público. Tem quem perdoe por avaliar todo um lado psicológico e ter empatia pela vida daquela pessoa, e tem quem odeie.

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SP: Roxie é a mais sonhadora e ambiciosa das prisioneiras. Quais são os sonhos e desejos da Carol Costa?
CC: Carol sonha em viver da arte e viver muitos personagens ainda. Fama é consequência. Eu, diferentemente da Roxie, tenho aproveitado o caminho e o processo. Tô construindo minha carreira e colhendo frutos lindos das minhas escolhas profissionais. E minha maior alegria é saber que todo mundo que chega na minha rede social chega por curiosidade e por ter curtido o meu trabalho. Eu tenho muita alegria em dizer que hoje tenho admiradores que vão ao teatro para me ver. Que alegria é saber que tiro uma pessoa de casa para ir ao teatro. É sobre isso. Sobre tocar as pessoas e transformar a vida delas um pouquinho que seja. Meu sonho é crescer e expandir minhas habilidades cada vez mais. Ser cada vez mais versátil e trabalhar com arte até ficar bem velhinha rs. Quero realizar muita coisa ainda. Fazer teatro, Streaming, novelas etc. Fica a dica hein, produtores de elenco! Rs.

SP: Em “Chicago” você contracena com Paulo Szot, um ganhador do Tony Awards e que estava em cartaz com a mesma produção na Broadway. Tentaria uma carreira internacional? O que mais te faria considerar a ideia?
CC: Estou aberta a todas as oportunidades bacanas que aparecerem. Vou aonde meu trabalho me levar. Se meu chamado for levar arte para outro lugar, eu irei. Tenho muito orgulho dos nossos artistas brasileiros, que estão conquistando oportunidades fora do país. Temos muitos amigos no teatro musical fazendo papéis e conquistando trabalhos lá fora. Nós, artistas brasileiros, nos sentimos representados e orgulhosos. Broadway, aí vou eu! Me chama!

Carol Costa como Chiquinha, em Chaves o Musical (Foto: Andy Santana)

SP: Você emendou grandes personagens, como Hebe, Chiquinha e Roxie Hart, que são completamente diferentes e exploram diferentes vertentes suas. Tem algum outro personagem ou perfil dos sonhos?
CC: Amo mudar e viver personagens diferentes uns dos outros. Não tenho nada específico em mente, mas qualquer desafio que chegar é bem vindo e enriquecedor. Não tenho vaidade no palco. Me considero disponível e curiosa.

SP: Em seu discurso, no Prêmio Bibi Ferreira 2021, você pediu para que os produtores e criativos deem mais oportunidades para o coro/ensemble. Considerando seus anos de carreira e experiências, acredita que este cenário esteja mudando nas audições? Sente que já há mais oportunidades no mercado?
CC: Sinto que há mais oportunidades e mais gente nova chegando. Gente com gás, com vontade. Gente criativa. Pessoas que hoje tem a oportunidade de estarem mais bem preparadas para o mercado. Na minha época, quando comecei, não havia um lugar que eu pudesse estudar especificamente teatro musical. Hoje em dia existem muitas possibilidades. Então o mais inteligente é estar preparado, se dedicar e estudar muito para quando a oportunidade aparecer. E claro, ser resiliente. O ‘Não’ faz parte do nosso caminho. É passar por cima e continuar tentando…

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Andy Santana

CEO do Soda Pop, fotógrafo, inquieto, formado em moda e que ama música. Não exatamente nesta mesma ordem!

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